O conceito de risco: evento com potencial danoso, exposição e vulnerabilidade

Instituto Butantan, São Paulo – SP (acervo próprio)

Parte I: Risco

Às vezes nos referimos a risco quando discutimos a probabilidade de determinado evento acontecer ou não. Por exemplo, qual o risco de queda se eu correr num pátio molhado? Contudo, em matéria de resiliência ou desastre, risco aborda não apenas a probabilidade do dano ocorrer, mas qual o impacto decorrente de determinado evento. Ou seja, se eu cair no pátio molhado, vou derrubar e quebrar meu celular? Minhas roupas vão se molhar? Vou machucar as pernas?

Nesta disciplina, risco pode ser entendido como o potencial de perda de vida, lesão, destruição ou dano a propriedades que pode acontecer em certo sistema, sociedade ou comunidade, em determinado período de tempo. [1] Também chamado de risco de desastre, refere-se ao resultado da combinação e interação de três elementos: evento com potencial danoso (hazard), exposição e vulnerabilidade.

A Estratégia Internacional de Redução de Desastres da ONU (UNSIDR) define estes três elementos que compõem o risco da seguinte maneira [2]:

– Evento com potencial danoso: fenômeno, substância, atividade humana ou condição que pode causar perda de vida, lesão ou outros impactos à saúde, dano à propriedade, perda de subsistência ou serviços, disrupção social e econômica, ou dano ambiental.
– Exposição: presença de pessoas, propriedades, sistemas ou elementos em zonas de evento com potencial danoso e, portanto, sujeitas a potenciais perdas.
– Vulnerabilidade: características e circunstâncias de uma comunidade, sistema ou patrimônio que a/o torna mais suscetível aos efeitos danosos do evento.

Em resumo, risco é o resultado da ocorrência de um evento com potencial danoso, onde haja exposição, em área ou contexto de vulnerabilidade. Esses três componentes também são utilizados para avaliação de risco, tema que será abordado em artigos futuros.

Como resultado da dinâmica e complexa relação entre esses três componentes, diferentes países, comunidades e sistemas contam com diferentes níveis de exposição e vulnerabilidade aos eventos com potencial danoso. Isso significa que existe uma distribuição desigual do risco pelo planeta. Determinadas áreas podem estar expostas a frequentes eventos com potencial danoso, mas possuem estratégias, tecnologias e práticas de adaptação e resiliência, de modo que o risco se torna baixo. Por outro lado, certas regiões podem estar expostas a eventos menos frequentes, mas uma maior vulnerabilidade faz com que o risco se torne alto.

É importante compreender, então, que a mera ocorrência do evento com potencial danoso não configura o desastre. Isso significa que, para reduzir o risco, a gestão pública deve se preocupar não apenas com a prevenção e preparação para eventos com potencial danoso (não se deixando de lado o desafio que é prever com precisão o momento de ocorrência ou intensidade de tais eventos), mas também com a redução da exposição e vulnerabilidade. Quanto maior a exposição e a vulnerabilidade, mais severos os danos causados pelo evento.

Exposição e vulnerabilidade variam em tempo e espaço, dependendo de fatores econômicos, sociais, geográficos, demográficos, culturais, institucionais, governamentais e ambientais. Relevante ressaltar que sistemas mais vulneráveis e expostos, em geral, são aqueles associados a má gestão ambiental, mudanças demográficas, urbanização rápida ou mal planejada em áreas de perigo, governança falha ou escassez de meios de subsistência para as populações mais pobres. [3]

A redução do risco, portanto, está estreitamente ligada à capacidade do sistema resistir, absorver, acomodar e se recuperar de eventuais danos, de modo que o risco também se torna uma medida de resiliência urbana. [4] Um contexto de alto risco ameaça a manutenção dos serviços e atividades básicas de um sistema, de modo que cabe à gestão urbana incorporar estratégias para redução do risco nas cidades (que, como veremos futuramente, se localizam principalmente no elemento de vulnerabilidade). 

Um sistema capaz de gerir risco, preparando-se para impacto (inclusive surpresa), respondendo e se recuperando eficientemente, tem maior probabilidade de se tornar mais resiliente a choques e estresses. [5] Dada a relevância deste tópico, este é o primeiro artigo de uma série de quatro artigos. As próximas publicações pretendem a discutir com mais profundidade cada um dos componente do risco (evento com potencial danoso, exposição e vulnerabilidade), uma vez que se tornam importantes conceitos a serem endereçados pela gestão pública para construção de cidades resilientes.

[1] United Nations Office for Disaster Risk Reduction (UNDRR). Disaster risk. Conferir: https://www.undrr.org/terminology/disaster-risk 

[2] United Nations International Strategy for Disaster Reduction (2009). UNISDR Terminology on Disaster Risk Reduction. Conferir: https://www.preventionweb.net/files/7817_UNISDRTerminologyEnglish.pdf 

[3] Cardona, O.D., M.K. van Aalst, J. Birkmann, M. Fordham, G. McGregor, R. Perez, R.S. Pulwarty, E.L.F. Schipper, and B.T. Sinh (2012): Determinants of risk: exposure and vulnerability. Conferir: https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/2018/03/SREX-Chap2_FINAL-1.pdf 

[4] Prevention Web. Disaster Risk. Conferir: https://www.preventionweb.net/disaster-risk/risk/disaster-risk/ 

[5] Tom Mitchell and Katie Harris (2012). Resilience: A risk management approach. Conferir: https://www.odi.org/sites/odi.org.uk/files/odi-assets/publications-opinion-files/7552.pdf